sexta-feira, janeiro 12, 2007

Papel de presente

Fábio Ricardo e Natália Maeda

Era Natal. A árvore estava arrumada no canto da sala, os presentes espalhados pelo chão, ainda intactos, mesmo já passando das 14h.

Quatorze anos havia se passado desde que ela não o via. E agora, justo agora que conseguira reencontrá-lo, ele sumira novamente.

Os presentes intactos.

De repente o telefone tocou. A voz grossa e séria perguntou por ela.

Ela se recostou na parede, ofegante, enquanto o telefone esperava por qualquer resposta.
Concentrou-se, reuniu todas as suas forças e respondeu:

- Sim, é ela.

A voz do outro lado da linha também emudeceu. Depois, em um estalo, desligou o aparelho.

Ela colocou o fone no gancho e passou a andar em círculos. Tentava raciocinar, mas não conseguia pensar em nada. Haveria acontecido algo com ele? Logo ele, tão forte, tão... sábio? Não seria possível.

Ela caminhou até a varanda, tentando se recordar de algo que tivesse dito a ele, de algo que ele tivesse dito. Mas nada lhe veio à mente, exceto os momentos agradáveis em que ela preparara a ele os bolinhos de chuva de que tanto gostava, desde pequeno gostava.

Chegando à varanda olhou o tempo lá fora. Chovia forte, o vento trazia o cheiro dos eucaliptos para dentro da casa e a chuva espantava as aranhas que costumavam aparecer nessa época do ano.

Os presentes intactos.

Por que ele não os abrira, por que sumira sem se despedir?

O cheiro dos eucaliptos tinha cheiro é de tristeza, de nostalgia, de amor, de lágrimas de chuva.

Há 14 anos ele não aparecia. De repente, surge em uma manhã de chuva, tal qual presente de Natal. Passaram o dia dando gargalhadas e conversando amenidades. Fizeram questão de não falar sobre o passado. Foram dormir, e quando ela acordou, ele não estava mais na casa. Agora já passava das 16h e nem sinal dele.

Ela deu um passo à frente e se debruçou na grade da varanda, de modo que seu tronco ficasse exposto à chuva. Fechou os olhos, sentindo as gotas d'água. Precisava fazer alguma coisa. Precisava pensar no que fazer.

- Sai daí, você vai acabar pegando um resfriado - disse uma voz à sua frente. Mas não era a voz dele.

O vizinho passava à frente da casa, com um cachorro ao lado e sob um velho guarda-chuva preto. Deveria estar voltando da roça mais cedo, expulso pela chuva forte.

Ela agradeceu com um movimento de cabeça e entrou na casa. Precisava pensar, precisava agir.

O relógio na parede avançava a espaços mais largos que o normal, misturando o som do tic-tac a uma goteira que pingava em um balde na sala.

De súbito, ela se virou. Correu de volta para a varanda, mas o vizinho já havia sumido. Seu coração começou a palpitar mais forte.

Queria pedir sua ajuda, mas não saberia se isso poderia ajudá-la a encontrar quem procurava. Onde ele poderia ter ido? Não conhecia ninguém na cidade. Se fosse fazer compras, já deveria ter voltado. Além disso, era dia de Natal, estava tudo fechado. Mas e se ele tivesse sofrido um acidente, devido à chuva forte? As possibilidades não paravam de passar por sua cabeça.

Bateu porta da vizinha, que sorriu com pesar.

- Já te disse, meu bem. Aqui ele não passou. O Zé Elias veio aqui agora com o cachorro, também não viu ele não.

Ela agradeceu e voltou para sua casa. Estava encharcada. Tirou os sapatos antes de entrar e os deixou secando na varanda. Resolveu tomar um banho, torcendo para que quando terminasse ele já a estivesse esperando na sala.

O vapor d'água se espalhava pelo banheiro à medida que os pensamentos mais íntimos dela escorriam pelo ralo. Um rio de pensamentos. Pôde sentir as lágrimas escorrerem junto por seu corpo.

Desligou o chuveiro e ficou quieta por alguns segundos, apenas escutando. Nenhum ruído na casa toda. Secou-se enquanto as lágrimas continuavam a escorrer.

De repente, um leve som de flauta penetrou lentamente o ambiente por debaixo da porta.

Ela parou de se mover por um instante. Não podia acreditar em seus ouvidos.
Enrolou-se na toalha se nem ao menos terminar de se secar e correu para fora do banheiro.

E lá estava ele.

Ela não pôde acreditar, era ele! Ele, ali, virado de costas, em frente à janela, tocando sua velha e boa flauta doce.

Ela correu em sua direção com um sorriso de alívio nos lábios, gritando seu nome.

Ele se virou.

Não era ele.

- ...você? - ela perguntou, sem acreditar. Seus olhos brilhavam, espantados.

- Esperava por outra pessoa?

Ela se recostou na parede ao lado da janela, fitando-o sem desviar o olhar. Segurou a toalha com mais força para que não caísse.

- O que você fez com meu filho? - ela perguntou, em um sussurro involuntário.

- Não fiz nada, seu filho está na casa dele! - respondeu agressivo.

Ela ficou calada. Sentiu que as lágrimas estavam voltando.

Não queria causar nada, não queria que outro acesso de fúria explodisse ali, bem na frente dela. Estendeu a mão, receosa, e tocou a face do homem. Ele fechou os olhos, parecendo desfrutar daquele contato como uma forma de resgate de qualquer serenidade já passada.

Ela afastou-se dele, foi até o balcão e agarrou um copo e uma garrafa de uísque.

- Você não vai beber isso de novo - disse ele rispidamente. - senão nunca mais vai ver o garoto.

Ela se jogou sentada no chão, chorando.

- Isso não é justo - disse, entre as lágrimas.

- Esqueça. Ele chegou esta manhã lá em casa, sozinho. Tinha o olho roxo e não quis me dizer o que havia acontecido, disse que brigou na rua. Há 14 anos que ele mora, comigo, 14 anos! Achei que você já havia aprendido sua lição - disse, virando as costas e caminhando em direção à porta.

- Não!

Ele parou e se virou para ela.

- Não vá.

Ele voltou e se sentou ao seu lado, esforçando-se para não jogar na cara dela toda a raiva que sentia dentro do peito.

- Não vá - ela o abraçou com força. Ele olhou para a chuva lá fora, agora mais intensa.

Ele ficou parado, enquanto ela chorava copiosamente. Era claro que ela já não tinha mais forças. Ele ajudou-a a se levantar e fez com que deitasse no sofá.

- Fique aí, eu já volto.

Ele saiu da casa.

Ela estendeu a mão à pequena mesa ao lado do sofá e pegou um velho porta-retrato.

Lá estavam. Ela e eles dois, todos reunidos em frente à árvore de Natal. O Natal em que ainda havia alguma felicidade.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

As Rosas Não Falam

Fábio Ricardo e Natália Maeda

Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas. O café, a chuva, tudo se misturando como uma história só. Deve ter sido a ressaca. Todas as memórias coloridas de noite passada continuam lutando entre si. Assim fica difícil pensar em algo concreto.

Lá fora a lua brilha enorme, refletindo à atmosfera e pintando de azul turquesa um céu estranhamente desestrelado. Enquanto aqui dentro sento eu e meus papéis, tentando criar a próxima fala de Rosaura. Rosaura que tem a pele negra como a noite lá fora, mas que não tem rosto. Ainda não tem. "Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas". Será que Rosaura falaria isso? É, acho que sim. Rosaura é simples, mas é inteligente. Por isso se questiona tanto. Questiona-se tanto, mas tanto, que acaba inventando suas próprias respostas, ditando uma enciclopédia para perguntas existenciais e questões atmosféricas. Ah, Rosaura... Sem querer aquela rosa na janela lhe falou bom dia, e não é que Rosaura criou a teoria da solidão das flores?

Solidão das flores... solidão das flores.... droga! onde é que está a página que vinha depois da solidão das flores? Tento me lembrar. Luísa tinha falado pra Rosaura sobre o buraco no teto. Aquela parte da divagação. Página quinze, segunda versão do capítulo dois. "Então achei que as flores se sentissem sozinhas". Ah, sim. Aqui está. A teoria da solidão das flores.

Não sei o que escrever. Não bastam teorias e idéias usadas. Rosaura se lembra novamente das flores melancólicas - mas e aí? De teorias as livrarias estão cheias. É um tal de monges que mexem nos queijos dos executivos que eu fico perdido. Pérolas de auto-ajuda destiladas ao sabor dos ventos, prontas para supervalorizar. Rosaura não pode ser mais uma dessas. Rosaura tem que ser única, tem que ser sábia sem saber. Como queria eu sê-la, sem necessitar traduzir em palavras de normas – ou normas de palavras – o anacronismo de uma sabedoria forjada (como essa). Eu quero ser simples como a rosa que falou bom dia, só isso. Rosaura tem que ser sábia, eu tenho que ser simples. Mas como fazer isso se o contrário é tão cortante?

Respiro fundo e me recosto na cadeira. Começou a chover de novo.

O verão é quente e as chuvas parecem ter hora marcada. Iniciam às 17h, fazem uma breve pausa às 17h40 e voltam a molhar em menos de meia hora. Todo dia assim. Todo dia o mesmo cinema na janela em frente à minha mesa. De certa forma, é até bom. Há meses que a televisão não pega. A chuva passa a ser uma companheira fiel. Vem a nuvem, o céu escurece, caem gotas frias. As rosas no parapeito tomam banho, Rosaura passa correndo pelo quintal, rindo.
As gotas da chuva e do absinto se misturam pela milionésima vez. Passo a tarde olhando Rosaura tomar banho de chuva no quintal. A tez negra e o vestido branco, molhado, girando no quintal.

Mas, de repente, ela olha para mim. Olha em meus olhos. Fico atordoado, isso nunca aconteceu antes. A minha criação me contempla e me convida para entrar no seu mundo. Fico paralisado. Olho para a taça vítrea repleta do líquido verde. Está lá. Todo o absinto continua na taça, ainda não dei sequer um gole. Bêbado não estou, terei ficado louco?

Rosaura ri de minha incredulidade. Seu riso é leve, solto. Seus cabelos molhados balançam e dançam. Ela vem até minha janela e se debruça sobre o parapeito, sorrindo como se quisesse dizer "fique calmo!”. Eu aguardo, aguardo e nada. Nem uma palavra.

Rosaura estende lentamente a mão molhada, até encostar em meu rosto frio de nervosismo. Ela cheira a jasmim. Fecho os olhos, querendo me enganar de que isso tudo é possivelmente normal.

Aproximo-me cada vez mais, sentindo o cheiro de jasmim, que juro sentir vindo de seus lábios. O rosto de Rosaura fica a dois palmos do meu. Sim, agora consigo ver como ele é. No começo, só havia os cabelos cacheados e a pele negra, mas agora vejo com uma clareza profunda os olhos verdes e vívidos, os lábios grossos, os dentes brancos sorrindo para mim... Aproximo-me cada vez mais. Rosaura também se aproxima, olhos fechados e lábios unidos, assim como os meus.

Ela me beija. Mas não a sinto.

Abro os olhos, assustado. Meu lábios estão colados na janela fechada, minha respiração embaça o vidro encostado no meu rosto. Lá fora a noite continua azul, mas não chove.

Encabulado, vejo a garrafa vazia, caída no tapete.

Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas.