Fábio Ricardo e Natália Maeda
Era Natal. A árvore estava arrumada no canto da sala, os presentes espalhados pelo chão, ainda intactos, mesmo já passando das 14h.
Quatorze anos havia se passado desde que ela não o via. E agora, justo agora que conseguira reencontrá-lo, ele sumira novamente.
Os presentes intactos.
De repente o telefone tocou. A voz grossa e séria perguntou por ela.
Ela se recostou na parede, ofegante, enquanto o telefone esperava por qualquer resposta.
Concentrou-se, reuniu todas as suas forças e respondeu:
- Sim, é ela.
A voz do outro lado da linha também emudeceu. Depois, em um estalo, desligou o aparelho.
Ela colocou o fone no gancho e passou a andar em círculos. Tentava raciocinar, mas não conseguia pensar em nada. Haveria acontecido algo com ele? Logo ele, tão forte, tão... sábio? Não seria possível.
Ela caminhou até a varanda, tentando se recordar de algo que tivesse dito a ele, de algo que ele tivesse dito. Mas nada lhe veio à mente, exceto os momentos agradáveis em que ela preparara a ele os bolinhos de chuva de que tanto gostava, desde pequeno gostava.
Chegando à varanda olhou o tempo lá fora. Chovia forte, o vento trazia o cheiro dos eucaliptos para dentro da casa e a chuva espantava as aranhas que costumavam aparecer nessa época do ano.
Os presentes intactos.
Por que ele não os abrira, por que sumira sem se despedir?
O cheiro dos eucaliptos tinha cheiro é de tristeza, de nostalgia, de amor, de lágrimas de chuva.
Há 14 anos ele não aparecia. De repente, surge em uma manhã de chuva, tal qual presente de Natal. Passaram o dia dando gargalhadas e conversando amenidades. Fizeram questão de não falar sobre o passado. Foram dormir, e quando ela acordou, ele não estava mais na casa. Agora já passava das 16h e nem sinal dele.
Ela deu um passo à frente e se debruçou na grade da varanda, de modo que seu tronco ficasse exposto à chuva. Fechou os olhos, sentindo as gotas d'água. Precisava fazer alguma coisa. Precisava pensar no que fazer.
- Sai daí, você vai acabar pegando um resfriado - disse uma voz à sua frente. Mas não era a voz dele.
O vizinho passava à frente da casa, com um cachorro ao lado e sob um velho guarda-chuva preto. Deveria estar voltando da roça mais cedo, expulso pela chuva forte.
Ela agradeceu com um movimento de cabeça e entrou na casa. Precisava pensar, precisava agir.
O relógio na parede avançava a espaços mais largos que o normal, misturando o som do tic-tac a uma goteira que pingava em um balde na sala.
De súbito, ela se virou. Correu de volta para a varanda, mas o vizinho já havia sumido. Seu coração começou a palpitar mais forte.
Queria pedir sua ajuda, mas não saberia se isso poderia ajudá-la a encontrar quem procurava. Onde ele poderia ter ido? Não conhecia ninguém na cidade. Se fosse fazer compras, já deveria ter voltado. Além disso, era dia de Natal, estava tudo fechado. Mas e se ele tivesse sofrido um acidente, devido à chuva forte? As possibilidades não paravam de passar por sua cabeça.
Bateu porta da vizinha, que sorriu com pesar.
- Já te disse, meu bem. Aqui ele não passou. O Zé Elias veio aqui agora com o cachorro, também não viu ele não.
Ela agradeceu e voltou para sua casa. Estava encharcada. Tirou os sapatos antes de entrar e os deixou secando na varanda. Resolveu tomar um banho, torcendo para que quando terminasse ele já a estivesse esperando na sala.
O vapor d'água se espalhava pelo banheiro à medida que os pensamentos mais íntimos dela escorriam pelo ralo. Um rio de pensamentos. Pôde sentir as lágrimas escorrerem junto por seu corpo.
Desligou o chuveiro e ficou quieta por alguns segundos, apenas escutando. Nenhum ruído na casa toda. Secou-se enquanto as lágrimas continuavam a escorrer.
De repente, um leve som de flauta penetrou lentamente o ambiente por debaixo da porta.
Ela parou de se mover por um instante. Não podia acreditar em seus ouvidos.
Enrolou-se na toalha se nem ao menos terminar de se secar e correu para fora do banheiro.
E lá estava ele.
Ela não pôde acreditar, era ele! Ele, ali, virado de costas, em frente à janela, tocando sua velha e boa flauta doce.
Ela correu em sua direção com um sorriso de alívio nos lábios, gritando seu nome.
Ele se virou.
Não era ele.
- ...você? - ela perguntou, sem acreditar. Seus olhos brilhavam, espantados.
- Esperava por outra pessoa?
Ela se recostou na parede ao lado da janela, fitando-o sem desviar o olhar. Segurou a toalha com mais força para que não caísse.
- O que você fez com meu filho? - ela perguntou, em um sussurro involuntário.
- Não fiz nada, seu filho está na casa dele! - respondeu agressivo.
Ela ficou calada. Sentiu que as lágrimas estavam voltando.
Não queria causar nada, não queria que outro acesso de fúria explodisse ali, bem na frente dela. Estendeu a mão, receosa, e tocou a face do homem. Ele fechou os olhos, parecendo desfrutar daquele contato como uma forma de resgate de qualquer serenidade já passada.
Ela afastou-se dele, foi até o balcão e agarrou um copo e uma garrafa de uísque.
- Você não vai beber isso de novo - disse ele rispidamente. - senão nunca mais vai ver o garoto.
Ela se jogou sentada no chão, chorando.
- Isso não é justo - disse, entre as lágrimas.
- Esqueça. Ele chegou esta manhã lá em casa, sozinho. Tinha o olho roxo e não quis me dizer o que havia acontecido, disse que brigou na rua. Há 14 anos que ele mora, comigo, 14 anos! Achei que você já havia aprendido sua lição - disse, virando as costas e caminhando em direção à porta.
- Não!
Ele parou e se virou para ela.
- Não vá.
Ele voltou e se sentou ao seu lado, esforçando-se para não jogar na cara dela toda a raiva que sentia dentro do peito.
- Não vá - ela o abraçou com força. Ele olhou para a chuva lá fora, agora mais intensa.
Ele ficou parado, enquanto ela chorava copiosamente. Era claro que ela já não tinha mais forças. Ele ajudou-a a se levantar e fez com que deitasse no sofá.
- Fique aí, eu já volto.
Ele saiu da casa.
Ela estendeu a mão à pequena mesa ao lado do sofá e pegou um velho porta-retrato.
Lá estavam. Ela e eles dois, todos reunidos em frente à árvore de Natal. O Natal em que ainda havia alguma felicidade.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
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2 comentários:
massa a idéia...
mas escrever em dupla deve ser um tanto qto difícil, né...
abraço!
Grata pelo carinho no Bar, jovem! Bom esses textos, viu?!
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